Muitos conhecem Hanae Mori como uma grande grife de perfumaria e cosméticos, contudo poucos têm conhecimento sobre a trajetória de sua criadora que desafiou uma sociedade e se tornou uma das mulheres japonesas mais poderosas do século XX.

 

hanae mori
Hanae Mori

 

Nascida em 1926 numa família abastada de Shimane, frequentou colégios prestigiosos, inclusive graduou-se em Literatura pela Tokyo Woman’s Christian University, na cidade de Tokyo. Apesar de sua formação, Hanae Mori acabou atuando no segmento da moda, uma das razões que a levaram para isto foi a influência de seu pai, que era um cirurgião que sempre estava atento as tendências da moda, outro ponto que impulsionou a mudança de área foi o seu casamento com o filho de um rico proprietário de uma fábrica têxtil, Ken Mori, o que despertou uma maior proximidade do mundo fashion.

Em 1951, Mori cursou aulas de corte e costura em uma escola local, estudando estilismo e modelagem de roupas ocidentais e no mesmo ano abriu seu atelier em Shinjuku, em Tokyo.

Todavia, foi através de um convite dos cineastas Yasujiro Ozu e Kimisaburo Yoshimura para  o desenvolvimento de figurinos para seus filmes, que a s sua carreira se expandiu, atuando em mais de 300 filmes na produção de vestimentas. Cinco anos depois da abertura de seu atelier, Hanae Mori abriu sua própria boutique no bairro de Ginza, na época, um dos bairros mais sofisticados de Tokyo.

Mas foi em 1961, que a designer teve o encontro emblemático com Gabrielle “Coco” Chanel em Paris, evento que marcou sua vida. Foi através da visita a loja Chanel, que Mori se inspirou na haute couture, estilo que a partir de então, passou a se dedicar com muito primor. Em 1963, tornou-se a primeira estilista japonesa a abrir um estúdio em Paris, onde iniciou a criação de peças sob medida para a elite ocidental.

Logo após, Mori iniciou o desenvolvimento da sua primeira linha ready-to-wear que apresentou em Nova York no Hotel Delmonico, coleção que chamou a atenção do proprietário de uma loja de departamento de luxo, Stanley Marcus . E no início da década de 70, Mori abriu um ateliê em Nova York, que permitiu seu reconhecimento internacional.

Ela desenhou uniformes para as aeromoças da Japan Air Lines ( JAL) o 3 modelos entre 1977 e 1988, o segundo look destacou-se pelo uso da minissaia, que virou uma tendência para as mulheres de todo o mundo nessa época.

 

melanie kirchhoff no atelier hanae mori em 1980
Melanie Kirchhoff no atelier de Mori em 1980

 

Em 1985, Mori aventurou-se em desenvolver o figurino para o espetáculo de Madame Butterfly para o teatro de Milan’s La Scala. Seu complexo trabalho carregado de beleza e detalhes, encantou com seus 150 figurinos desenhados para a apresentação de ballet de Cinderella, realizado na Paris Opera.

A partir dos anos, 80, Mori criou uma lucrativa linha de acessórios como bolsas, sapatos e lenços femininos. E ainda desenvolveu uma linha de perfumes e colônias femininos e masculinos que também levou o seu nome e expandiu ainda mais sua marca, em 1995.

linha de perfumes feminino e masculino de hanae mori
Linha de perfumes feminino e masculino de Hanae Mori

 

Ainda hoje Hanae possui uma boutique em Tokyo, onde reside. Em 2005, a estilista se aposentou e criou a Fundação Hanae Mori para ajudar a juventude criativa. Em 2009, uma exposição nomeada de  Made by Hand: Hanae Mori and Young Artists foi lançada nas cidade de Mito e em Tokyo pela Hanae Mori Foundation.

A sua aposentadoria foi considerada uma grande perda para a indústria fashion, contudo, ainda permanece administrando os negócios de sua grife. Onde a atual brand, recebeu o nome de Hanae Mori Manuscrit e segue dirigida pelo designer Yu Amatsu.

Diante de sua primeira formação Mori ainda desenvolveu artigos para revistas e jornais, além disso escreveu diversos livros sobre a criação de moda e sobre seu próprio trabalho, como em Ashita no detain, Garasu no Cho, Fasshon Cho ha kokkyo wo koeru e  Goodbye Butterfly.  E em 1966, começou a publicar a Mori Hanae Ryuko Tsushin, um jornal publicado e distribuído para os clientes de suas boutiques na época. Em colaboração com o jornal Japan Sen-I Shimbun, o jornal de Mori tencionou a trabalhar com as últimas notícias do mundo fashion, ilustrado por fotógrafos, assim como garantir informações e divulgação de sua marca. Em 1969, a publicação foi renomeada para Ryuko Tsushin, onde foi totalmente desenvolvida como uma revista dedicada a reportar e informar a respeito das coleções de moda internacionais, designers e tendências.

 

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Publicações Mori Hanae Ryuko Tsushin

 

Estilo da Madame Borboleta

Desde a infância, Hanae Mori sempre utilizou roupas ocidentais, o que responde a sua familiaridade com o desenvolvimento de peças ao estilo yofuku. Seu trabalho ficou conhecido por detalhes refinados e pela delicadeza na confecção manual.

Em suas criações a designer mixava conceitos e padrões orientais à modelagem ocidental. Um elemento que se apresentava de maneira recorrente em suas roupas era a borboleta,  que simbolizava a transcendência e transformação, tornando-se a assinatura de sua marca e garantiu a ela o apelido de Madame Butterfly.

 

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peças de Hanae Mori
Peças de Hanae Mori

 

Entre outras inspirações, Mori utilizou temas tradicionais japoneses como estampas de bambus, personagens do teatro kabuki, florais bem característicos e entre outros. Nota-se uma variação muito grande de materiais, desde tecidos finos como a seda, até os brocados utilizados em quimonos de luxo. Assim, suas modelagens variavam de fluidas até as mais estruturadas. Apesar de apresentar um estilo mais ocidental, as peças de sua coleção remetem sempre a uma conexão com as suas raízes, criando uma identidade própria.

 

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Desfile Hanae Mori com design de Yu Amatsu
Hanae Mori em desfile de sua marca com design de Yu Amatsu

Reconhecimento de seu trabalho

Sua grife vestiu grandes ícones imperiais e políticos como a Princesa Grace de Mônaco, as primeiras damas norte-americanas Nancy Reagan e Hillary Clinton e as damas da Família Imperial. Em 1993, desenvolveu os kimonos e o vestido de casamento da princesa japonesa Masako.

Após a abertura de seu ateliê em Paris, Hanae Mori foi admitida pela Chambre Syndicale de la Haute Couture Parisienne (Câmara Sindical da Alta Costura Parisiense) o mais alto título do escalão de moda parisiense, em 1977. Também foi condecorada em 1989 com o título de Dama da Ordem da Legião de Honra e elevada a Oficial da Ordem em 2002, foi denominada como  primeira estilista estrangeira a receber a honra máxima concedida pelo governo francês. Em 1996, recebeu a Bunka-kunshō (Ordem do Prêmio Cultural) pelo Império japonês.

A renomada fotógrafa Susan Wood, trabalhou em  Life, Vogue e Harper’s Bazaar, e em seu novo livro Women: Portraits 1960–2000 abordou uma história visual da influência e de poder feminino no mercado de trabalho dos Estados Unidos. Dentre elas, uma das mulheres escolhidas foi Hanae Mori. De fato, a designer rompeu convenções, tornando-se uma das primeiras mulheres a fugir dos papéis de esposa, mãe e dona de casa e construiu um império, conquistando reconhecimento como empreendedora pioneira no Japão, onde seus negócios atingiram além-mar.

 

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Hanae Mori fotografada por Susan Wood em 1987

 

O sucesso internacional de Mori não apenas transformou a moda japonesa, mas o seu  trabalho também influenciou o mainstream ocidental e abriu espaço no mundo fashion para os demais designers asiáticos.

 

REFERÊNCIAS:

SATO. Cristiane A. JAPOP: O Poder da Cultura Pop Japonesa. São Paulo: NSP-Hakkosha, 2007. p. 217-219 .
https://nenasnotes.com/2017/04/28/%EF%BB%BFfashion-flashback-japanese-designers/
http://www.famousfashiondesigners.org/hanae-mori
http://estilismoemvoga.blogspot.com.br/2011/04/estilista-hanae-mori.html
https://artsandculture.google.com/exhibit/1QJCh-wnD6eSJQ?hl=pt-BR
https://www.buzzfeed.com/gabrielsanchez/20th-century-women?utm_term=.ro9XWKK58K#.dx0lyDDazD
https://www.japantimes.co.jp/life/2008/01/08/people/hanae-mori/#.WqRbMGrwat8
http://vistelacalle.com/59149/hanae-mori-la-primera-disenadora-asiatica-de-alta-costura/
http://huaban.com/pins/742334045/
http://featherstonevintage.tumblr.com/post/84250833472/melanie-kirchhoff-in-the-hanae-mori-salon-vogue
https://www.metmuseum.org/search-results#!/search?q=hanae%20mori
https://digital.library.unt.edu/search/?q=hanae+mori&start=0&t=fulltext
http://blog.fidmmuseum.org/museum/2013/12/hanae-mori-jumpsuit-late-1960s.html
http://digitalcollection.chicagohistory.org/cdm/compoundobject/collection/p16029coll3/id/1502/rec/1
http://www.straitstimes.com/lifestyle/fashion/innovative-fabrics-bark-up-tokyo-fashion-tree
http://parfums-hanaemori.com/fr/
https://www.vogue.com/fashion-shows/tokyo-fall-2017/hanae-mori-designed-by-yu-amatsu/slideshow/collection
http://hanaemori-manuscrit.com/